sábado, 24 de maio de 2008

céu

"Não sei quando as coisas vão cair do céu.", foram suas primeiras palavras. As segundas palavras já não foram muito bem entendidas. A sua dicção era horrível. Ele disse tudo isso enquanto chovia, o que fazia ele se contradizer, pois água caía do céu. Ele tentava tocar "Noite Feliz" no piano, embora fosse dia e não era, nem um pouco, feliz. Mas, mesmo com dor de cabeça, ele tocava nota por nota, mesmo que fora do tempo. E a chuva acompanhava o dia e porque não a melodia. Sorria pateticamente com os seus avanços, mesmo que sua vida não estivesse em harmonia. "Quando eu vou chover do céu? E tão rápido cair dele, não me espatifar. Eu sinto como se eu estivesse ali só esperando a minha hora chegar!" Daí se seguiu umas notas e tropeços em seus dedos. Então, ele voltou ao começo e foi assim até chegar a noite, não a feliz.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

yai

"Quando você está ao lado de um amigo, alguém chega e pergunta pro seu amigo porque ele está sozinho. É aí que você percebe ser invisível e, talvez, mais do que isso, um mau amigo.", enquanto dizia isso olhou para o chão, como se quisesse enterrar algumas de suas lembranças. Quando terminou de falar, olhou para mim de um jeito que, se não fizesse aquilo, parecia que eu ia deixar de enxergá-lo.

cryandcryandfight

we can sing our souls, before the death takes them out.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

são nossas, as perdas

Sentiu um arrepio enquanto andava pela rua. O frio cortava, não tão fundo, somente para deixar um pequeno fio de sangue. A pessoa continuou andando, tentava levantar a cabeça, mas ela continuava a cair e olhar pro chão. O capuz protegia seus pensamentos um pouco densos. Estava com um moletom. Fazia tanto frio que aquele moletom fino não a protegia em nada, e agora se culpava por isso. Esquecera também os seus fones, mas tinha medo de escutar certas músicas em situações como essas. Porque se quisesse escutá-las outra vez, lhe trazeriam lembranças ruins. Ela seguia pelas ruas que estavam iluminadas, muitas ruas tinhas suas luzes apagadas. Então ziguezagueava pela sua pequena e conhecida cidade. Talvez as luzes levassem ela até algum lugar bom. Ou talvez não, a energia elétrica tava ficando escassa, então, talvez, deviam estar economizando, não sabia. Não imaginou muito, logo se situou na alternativa de que apenas deviam ter apagado as luzes dos postes de algumas ruas para economizar. Ninguém era doido de andar em ruas assim as 2 horas da manhã, por isso o vazio. Mas nunca está vazio, sempre há uma gota. Essa gota passava frio, mas passava isso porque queria, uma penitência. Nós fazemos em nós o que nosso arrependimento diz para fazermos. Então ela se machucava, precisava disso. As suas palavras tinham machucado muito outros, ela fazia isso porque ela mesmo estava machucada. Outros machucaram ela, pessoas que ela não considerava em nada. Então, fez sofrer quem ela amava. Tudo por causa de ressentimentos guardados em suas lembranças. Eram suas lembranças. Caiu de joelhos na calçada, o poste de luz que estava em cima dela apagou. O vento era forte e levava algumas folhas de árvores (não se sabe da onde veio, porque não tinha nenhuma árvore naquela rua). Seu rosto tentava levantar e ficar quarenta e cinco graus em relação ao chão, mas não conseguia muita coisa, porque logo fechava os olhos e abaixava a cabeça. Colocou as duas mãos no chão. Não sentia mais frio, apenas pequenos vestígios daquele vento. Sua forma não era mais a mesma; sua roupa já não estava em seu corpo, estava no chão rasgada. Suas patas, firmes, no chão. Era um urso solitário, o único da sua espécie.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

raízes

As suas mãos eram raízes, mas não estavam na terra. Elas não queriam se fincar na terra. Porque sempre pensaram que ali não era o lugar delas. Gostavam de apontar para o céu, e ir além dos céus. Sonhavam em penetrar as nuvens, e mais além as estrelas. Mas só de pensarem no além e na imensidão desse ficavam paradas, estáticas. Pois, o medo descia em forma de grandes chuvas, encharcando-as, deixando-as pesadas e fracas. O além era muito além do que elas podiam chegar. Pensavam que o universo podia ser cortado por elas, e talvez, se descobriria um novo verso. Mas, isso não aconteceria, pois como disse, o peso era muito para se aguentar. Então, ficaram ali mesmo. As vezes apontavam para o céu, apenas como um ritual, e as vezes apontavam para o chão, para se lembrarem aonde pertenciam.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

tristeza

eram momentos onde não se podia dizer
pois nada poderia ser dito
e nem era de se esperar alguém
que sabia calcular a velocidade da vida

tudo vai tão devagar quando não se tá bem
queria que fosse assim com o seu sorriso
fazer isso durar como a tristeza
que não me deixa descansar nem um minuto

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Fita cassete

As aves voavam no céu, enquanto sua mente estava presa em alguns problemas. Em sua mão ele tinha uma fita cassete de muitas ali jogadas no chão, onde gravava uma palavra por dia desde os seus vinte anos. Há sete anos ele dizia uma palavra por dia e no chão, cheio de fitas, estava a prova disso. Claro que não as gravava todo dia, porque tinha dias que ele ficava escutando tudo que ele tinha gravado. E esse estava sendo um dia desses. A janela aberta trazia outros ares para aquela sala e deixava cair alguns papéis perto dele, que estava sentado pensando se continuaria a escutar todas as fitas cassetes. "Quantos merda vou escutar?", pensou. As vezes, a mesma palavra se repetia dez vezes ou até mais. Se levantou, colocou a fita no mesmo gravador que as gravava e apertou play. Seguiu uma sequência de palavras e apertou pause. Andou até a janela e olhou para as pessoas que andavam na rua, todas com agasalho e algumas com cachecol. Fechou os olhos por um instante, abriu e olhou novamente para a movimentação. Era uma tarde fria, onde o sol tentava aparecer no céu, mas estava escondido atrás das nuvens. Com o gravador na mão apertou o play. Começou a ouvir novamente sua voz, quase hipnoticamente, dizer palavra por palavra. Suas íris desceu até os cantos de seus olhos, e sua visão embaçou olhando para alguns carros parados na rua. Ele ouvia todas aquelas palavras, sem nexo, que não formavam nenhuma frase. A maioria delas pareciam descrever algum dia ruim, enquanto outras mostravam uma certa neutralidade, ou até seria uma forma de tentar esconder o dia ruim para ele em seu futuro; ele não tinha força para parar a fita. A sua voz começou a se misturar em várias camadas e as palavras estavam se tornando zunidos. O chão não parecia mais ser visto do quarto andar e sua vida não parecia ter tantos anos. Sentou de costas para a janela e escorregou até poder ver o céu nublado e pedaços de prédios. Aves voavam por entre os fios elétricos e tentavam escalar os topos de cada construção. Apertou stop. Ficou parado olhando para frente. Levantou e arrumou as fitas pelo piso, fez um quadrado. E, fita por fita, gravou o quase-silêncio por cima de todas aquelas palavras. Os pássaros lá fora batiam suas asas e cantavam suas músicas. As pessoas pisavam no chão e algumas conversavam assuntos animados. O vento fazia as árvores falarem por entre suas folhas, ramos e flores. Sentado no centro da sala terminou o que determinado fez. Todas fitas já estavam dentro de uma caixa regravadas. Guardou a caixa em um armário e o gravador em uma gaveta. Colocou um cachecol e saiu pela porta da frente. A janela ficou aberta, onde o sol, ainda no frio deixou alguns de seus raios passarem, enquanto terminava sua jornada pelo céu.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Filme não gravado

Em dois quadros
muito menos que um segundo
eu sou todos os defeitos
desse mundo

defeitos que você não quer ter
e que você nunca vai querer

nesse mundo
eu não tenho feitos
nem por um segundo

em um filme não gravado
fui o cenário não usado
enquanto o seu sorriso
se confundia com a luz
que invadia o mundo todo

Vento

Caminhei até o banco mais alto, não era meu lugar preferido, sempre gostei de me esconder atrás desses bancos mais altos. Mas, foi o primeiro que vi e que estava vazio; sentei. O vento batia em meu rosto e eu fechava meu olho direito dependendo da intensidade que ele vinha. E meus cílios foram levados, um a um, pelo vento, como a flor dente-de-leão. Meus cílios-de-leão foram levados pelo vento da tarde-móvel. Eles se perderam por ruas, não acharam em que coração cair. E meu olho se desmanchou em gotas que no asfalto foram sangue, minha visão não era mais a mesma. Em meu cérebro sopraram remorsos. O vento ainda batia em meu rosto e eu deixei levar parte de mim. Fui desaparecendo, quando o som seco do freio me fez levantar e deixar um pedaço da minha vida na fresta daquele banco.

sábado, 12 de abril de 2008

Como não ter medo de algo que você, de alguma forma, acha que vai ser inevitável acontecer? A permanência em uma solidão que não tem fim, onde os seus desejos nunca vão ser reconhecidos como sinceros, então nunca serão realizados. Onde olhares não bastam, porque o homem esqueceu isso; ele sempre precisa falar, as vezes, até demais. Esqueceu que a comunicação, nem sempre, é feita somente de palavras jogadas ao léu.

Será se a pessoa consegue continuar vivendo se não tem nem um pouco de esperança? Pois, todos têm um pouco de esperança, por mais que diga que não tenham. Só continua vivo aquele que acredita que algum dia a felicidade será a parte predominante de sua vida, se já não é. Minha vida seria até boa, se não me sentisse tão mal. Por que você ainda acredita nessas mentiras?

Acho que faço as questões erradas, e quero as respostas certas. Ou eu deveria parar de questionar e desistir de tudo. Cada dia mais eu me sinto desmanchar em cima do meu pescoço. Meu silêncio pode terminar com todas essas palavras, pois, venho a pensar, que essa é a melhor coisa que eu sei fazer.